“Não contem com o fim da pena”
Parodiando Umberto Eco ["Não contem com o fim do livro"] optei por escrever este título.
De fato, a pena foi inventada, assim como a roda.
Não será reinventada, jamais.
Um ou outro detalhe pode ser modificado, mas a essência, a ideia geral, fica.
Mas o texto não se presta a falar sobre a invenção da pena e sim como ela se situa nos tempos atuais tecnológicos. Em tempo de digitação, de conversa virtual, não mais se pensa em escrever à mão e muito menos redigir carta.
Soa meio "cafona", aos mais jovens pegar caneta escrever algo a um amigo. Mas o fato é que a pena tem seu charme, desfrutado por poucas pessoas, sensíveis à arte de escrever à mão. Eu mesmo conheço poucos que escrevem com tal instrumento, mas que ainda possui admiradores.
A pena - só ela - proporciona escrita confortável, singular. É de somenos importância a cor da tinta. Esta flui naturalmente sobre o papel, traduz a marca do pessoal estilo de quem a utiliza.
A pena exerce verdadeiro fascínio sobre quem a toma na mão; a atração é fatal ao primeiro encontro e a convivência harmoniosa perdurará ao longo de décadas. Portanto, não contem com o fim da pena...
Permito que a pena deslize livremente sobre o papel a fim de que escreva aquilo que o espirito determinar.
A fluidez da escrita depende dela, da pena que me acompanha há mais de quatro décadas.
Transformar linguagem oral em escrita é dos atos mais difíceis. Creio que é coisa dos deuses. Decompor a palavra é algo complexo, que exige muito.
A pena caminha sem rumo sobre o virgem papel.
Às vezes de forma mais densa e aguda; às vezes mais vagarosa, com certa paciência.
As letras, nem sempre regulares, são grafadas com a tinta da perenidade.
Escrever é uma arte; bela arte.
Escrever com refinamento, estética e de forma que se consiga passar a mensagem, eis a grande questão.
Escrever com pena também é uma arte, quem sabe, concedida pelos deuses aqueles que sabem dar valor à escrita.
Carlos Roberto Claro